{"id":24857,"date":"2020-03-22T23:34:46","date_gmt":"2020-03-23T02:34:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdomarcellopatriota.com.br\/blog\/?p=24857"},"modified":"2020-03-23T09:36:55","modified_gmt":"2020-03-23T12:36:55","slug":"ele-cantou-o-amor-e-a-beleza-do-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdomarcellopatriota.com.br\/blog\/ele-cantou-o-amor-e-a-beleza-do-sertao\/","title":{"rendered":"Ele cantou o amor e a beleza do Sert\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><iframe title=\"Raulino Silva e Valdir teles (homenagem a Sebasti\u00e3o da Silva)\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yIJK1N08WC0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Arrastado de repente para o outro mundo por um infarto fulminante aos 64 anos, no in\u00edcio da noite deste domingo, o poeta Valdir Telles fazia da vida uma poesia. Versejar era o seu dom, a viola, sua paix\u00e3o. Desafios, nunca fugiu de um s\u00f3. Era vers\u00e1til, um monstro sagrado do repente. S\u00f3 compar\u00e1vel a Louro do Paje\u00fa ou Jo\u00e3o Paraibano, com quem fez\u00a0dupla a vida inteira.<\/p>\n<p>Assustado com o avan\u00e7o do coronav\u00edrus no mundo, mesmo n\u00e3o alcan\u00e7ando a sua ilha po\u00e9tica Tuparetama,\u00a0 no Sert\u00e3o do Paje\u00fa, onde morava, nem a sua Livramento, no Cariri paraibano, ber\u00e7o em que\u00a0 Deus o colocou no mundo, fez, ontem, sem saber que estava partindo para a eternidade, um belo improviso sobre o v\u00edrus da morte (no v\u00eddeo).<\/p>\n<p>Valdir falava de flores, dos encantos e encantos do seu torr\u00e3o natal. Dos seus versos brotavam uma beleza imensur\u00e1vel, apaixonante, de arrepiar e embolar cora\u00e7\u00f5es. Incapaz de n\u00e3o se verter uma l\u00e1grima.<\/p>\n<p>Seu canto e maior inspira\u00e7\u00e3o estava no campo, na natureza, nos ro\u00e7ados, numa simples borboleta colorida, de passos \u00e0 sua frente lembrando um bal\u00e9. Sert\u00e3o, para ele, era galo cantando ao amanhecer, Ave Maria no crep\u00fasculo, cheiro de caf\u00e9 torrado, jumento dando as horas, prociss\u00f5es pedindo a chuva que nunca vem.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-SfN0Xb0RH48\/UlWMuFxpIUI\/AAAAAAAAAFE\/HkxbvMzPUSQ\/s640\/Traga+a+Transposi%C3%A7%C3%A3o.jpg\" width=\"400\" height=\"283\" \/>Fez pareia na viola e no repente a vida inteira com Jo\u00e3o Paraibano, outro monstro sagrado com quem vai se juntar l\u00e1 no C\u00e9u em memor\u00e1veis cantorias.<\/p>\n<p>Talvez a inf\u00e2ncia dura e sofrida, superada no bom combate, tenha ficado como uma foto na parede nunca esquecida, vertente da sua inspira\u00e7\u00e3o. Valdir Teles ficou \u00f3rf\u00e3o de pai aos 11 anos e como filho mais velho, desde cedo assumiu a responsabilidade de sustentar a m\u00e3e e os quatro irm\u00e3os, trabalhando como agricultor at\u00e9 os 19 anos, quando resolveu sair do sert\u00e3o pra tentar a profiss\u00e3o de &#8220;oper\u00e1rio de firma&#8221; na Bahia, chegando ainda a trabalhar em Sobradinho, Itaparica e Paulo Afonso.<\/p>\n<p>Fez bico como retratista nas horas vagas, durante o per\u00edodo que morou na Bahia. Anos mais tarde, o poeta traduziu em versos parte da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Pai vinha de S\u00e3o Jos\u00e9\/Com uma bolsa na m\u00e3o\/ Minha m\u00e3e abria a bolsa\/ Me dava a banda de um p\u00e3o\/ Porque se desse o p\u00e3o todo\/ Faltava pro meu irm\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1979 regressou ao sert\u00e3o pernambucano quando em uma cantoria da dupla Sebasti\u00e3o da Silva e Moacir Laurentino no S\u00edtio Grossos em S\u00e3o Jos\u00e9 do Egito \u00a0foi apresentado aos poetas pelo Mestre das Artes e Poeta Z\u00e9 de Cazuza, onde teve a oportunidade de mostrar seus dotes po\u00e9ticos sendo de imediato convidado para apresentar um programa de viola numa r\u00e1dio da cidade de Patos.<\/p>\n<p>A partir de 1979, quando fixa resid\u00eancia em Patos, inicia a trajet\u00f3ria po\u00e9tica que j\u00e1 se anunciava de grande dimens\u00e3o para a cultura popular nordestina. Os anos vindouros marcaram a grava\u00e7\u00e3o do seu primeiro LP com o poeta L\u00facio da Silva pela gravadora Chantecler, a populariza\u00e7\u00e3o dos maiores programas do g\u00eanero, em emissoras como a R\u00e1dio Panati e a R\u00e1dio Espinharas de Patos, a participa\u00e7\u00e3o nos grandes eventos da cantoria e o destaque nos congressos e festivais.<\/p>\n<p>Em 1993, Valdir Teles muda-se para Tuparetama, cidade vizinha a S\u00e3o Jos\u00e9 do Egito e tamb\u00e9m situada no alto sert\u00e3o do Paj\u00e9u, regi\u00e3o internacionalmente conhecida como a Gr\u00e9cia dos cantadores e o reino imortal da poesia.\u00a0Com admir\u00e1vel acesso no meio art\u00edstico, Valdir traz em seu rol de confrades artistas como Maciel Melo, Alcymar Monteiro, Chiquinho de Bel\u00e9m, Santana, Fl\u00e1vio Jos\u00e9, Fl\u00e1vio Leandro, Galego Aboiador, Nico Batista, Amazam, Bia Marinho, Val Patriota e Raimundo Fagner.<\/p>\n<p>Seja nos palcos ou sentado num tamborete nas cantorias de p\u00e9 de parede, Valdir j\u00e1 cantou em dupla com os maiores nomes do universo da poesia popular a exemplo de Louro do Paje\u00fa, Ivanildo Vila Nova, Sebasti\u00e3o Dias, Sebasti\u00e3o da Silva, Z\u00e9 Viola, Geraldo Am\u00e2ncio e Z\u00e9 Cardoso.<\/p>\n<p>Com mais de 500 trof\u00e9us de primeiros e segundos lugares, uma turn\u00ea pela Europa com Ivanildo Vila Nova, outra pelo norte do pa\u00eds at\u00e9 a Bol\u00edvia, Valdir foi reconhecido e mencionado em tudo que envolve os grandes nomes da viola. Quando completou 60 anos, ganhou uma festa linda organizada por sua filha, a poetisa Mariana Telles, que \u00e9 ele de saia, na verdadeira express\u00e3o do talento.<\/p>\n<p>Sobre o pai, Mariana fala muito da beleza da sua alma e do seu canto parecido com o pai. &#8220;Eu sou uma c\u00f3pia do meu pai que o destino esqueceu de autenticar&#8221;, diz ela num dos versos em que se confunde com o pai.<\/p>\n<p>Emocionado na festa dos 60 anos, ao lado dos quatro filhos, Valdir Telles declamou:<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o posso negar que sou feliz\/Carregando a viola em minha m\u00e3o\/ A viola levou-me at\u00e9 Mil\u00e3o\/Antu\u00e9rpia, Bruxelas e Paris\/Fiz primeiro uma base em meu Pa\u00eds\/Pra depois pelo mundo viajar\/Meu estoque de gl\u00f3rias n\u00e3o tem par\/Meu sucesso rompeu Brasil afora&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Por Magno Martins<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arrastado de repente para o outro mundo por um infarto fulminante aos 64 anos, no in&iacute;cio da noite deste domingo, o poeta Valdir Telles fazia da vida uma poesia. 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