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Mistérios e Paixões por futebol

Há mistérios que a razão jamais logrará subjugar. Há paixões que desafiam o juízo, afrontam a lógica e, ainda assim, encontram morada no mais íntimo da alma humana. O futebol é uma delas.

Necessita o homem de causas que o sustentem, de razões que o façam despertar a cada aurora, de sentidos que iluminem a travessia de seus dias. Uns escolhem tais desígnios; outros são por eles escolhidos. Há quem conte as horas da segunda ao sábado para, no templo, elevar sua voz em louvor. Há quem atravesse quinze dias de espera para ouvir mais um episódio daquele podcast que lhe consola o espírito. Há quem derrame lágrimas diante de uma ficção, embora saiba que jamais existirá senão nas páginas da imaginação.

E quem ousará dizer que tais sentimentos são menores? Se a emoção é verdadeira, pouco importa se o objeto dela é eterno ou efêmero. O coração não distingue o palpável do impossível; apenas sente.

Assim também sucede com o futebol.

Não é apenas um jogo. Nunca o foi.

É o império do improvável, onde o gigante curva-se diante do pequeno, onde o herói de ontem converte-se no vilão de hoje, onde noventa minutos bastam para desfazer certezas laboriosamente construídas ao longo de anos. É o reino do imponderável, senhor absoluto dos destinos, onde nenhuma ciência é capaz de decretar o resultado antes que soe o derradeiro apito.

E, por paradoxal que pareça, talvez seja justamente por tratar-se do menos importante entre as coisas importantes que o futebol alcance tamanha grandeza. Pois, em meio às agruras da existência, oferece ao homem um raro instante em que lhe é permitido esquecer os fardos da vida para carregar apenas a esperança de um gol.

Hoje é segunda-feira, mas veste semblante de domingo.

O despertador cumpriu seu ofício, os escritórios abriram suas portas, as fábricas ressoaram seus primeiros ruídos. Contudo, o brasileiro desperta com a alma ausente, como se o labor fosse apenas um intervalo entre o nascer do sol e o instante sagrado em que a Seleção Canarinha adentrará o gramado.

As horas não se contam pelo relógio, mas pela proximidade do pontapé inicial.

Milhões partilharão uma mesma ansiedade, uma mesma prece silenciosa, um mesmo suspiro diante da tela. Estranhos tornar-se-ão irmãos por noventa minutos. Abraçar-se-ão sem jamais terem pronunciado o nome um do outro. Sofrerão juntos. Exultarão juntos. E, por um breve instante, parecerá que toda uma nação possui um único coração.

Dirão alguns que é exagero.

Talvez o seja.

Dirão outros que há assuntos infinitamente mais relevantes.

Sem dúvida, existem.

Todavia, eis uma das mais curiosas verdades da condição humana: muitas vezes, aquilo que de fato importa não é suficiente para manter acesa a chama da existência. Necessitamos também daquilo que, sendo menor, concede cor aos dias; daquilo que não salva vidas, mas as torna mais suportáveis; daquilo que não resolve os grandes problemas do mundo, mas oferece ao espírito um motivo para sorrir, esperar, sofrer e celebrar.

E talvez resida aí a maior nobreza do futebol.

Não por ser a coisa mais importante da vida.

Mas porque, entre todas as coisas que não o são, nenhuma parece possuir tamanho poder para mover multidões, suspender o tempo e recordar ao homem que viver é, também, permitir-se apaixonar pelo inexplicável.
Antonio José do Nascimento Ferreira / Jornalista, professor, analista político e gestor de políticas públicas governamentais